De Homi Bhabha a Rita Pereira: Sobre o Inferno das Boas Intenções

Ana Martins
4 min readJul 21, 2022
(rfm.sapo.pt)

“You’ve taken my blues and gone” (“Note on Commercial Theatre”, Langston Hughes)

Sabemos que, quando membros de uma cultura minoritária se apropriam de uma característica pertencente a um grupo dominante, tal pode transformar-se numa poderosa arma de justiça e reparação. Há exemplos maravilhosos deste fenómeno na literatura e não só. Homi Bhabha chamou-lhe “mímica” (mimicry), um conceito que opera pela repetição do mesmo com diferença. Através desta repetição imperfeita, o colonizado apropria-se do discurso do colonizador e dos seus modos de vida, mas apenas de forma parcial, deixando antever a racha no espelho: o mesmo mas não completamente. Igual mas não exatamente. É por essa racha que entra a luz desestabilizadora. Por sua vez, esta luz irá tirar partido da ambivalência identitária do próprio colonizador como forma de questionar o seu poder. Neste contexto, repetição é transgressão.

Quando o oposto acontece, ou seja, quando os poderosos se apropriam de características de culturas minoritárias, as desigualdades tendem a prolongar-se como sombras numa tarde de verão. Porquê? Pela simples razão de que, quando o colonizador imita o colonizado, não há espaço para ambiguidades identitárias. Historicamente, o colonizado não é entendido como o “modelo original”, portanto a representação da diferença, neste caso, terá sempre como modelo o colonizador enquanto “eu”, por oposição ao colonizado enquanto “outro”. Neste contexto, repetição é submissão (do “outro” ao “eu”).

Vem isto a propósito do novo estilo de cabelo adotado por Rita Pereira para os meses de verão e publicitado num vídeo na sua conta do Instagram. Para tornar esta apropriação cultural mais “apropriada”, Rita Pereira acompanha a imagem com a banda sonora “Filha da Tuga”, escrita por Carolina Deslandes, cantada por Irma. A dança de Rita Pereira não é só entre o privilégio do “eu” e a rasura do “outro”. Os fantasmas lusotropicais também dançam com ela, ao som de uma letra que fala de misturas:

E quê? Olho claro com carapinha
E quê? Um gingado que é alfacinha
E quê, e quê? Eu sou mistura e quê?

À primeira vista, a letra poderia ser entendida como uma tentativa de questionar a identidade própria do colonizador (português) e a ansiedade criada pela proximidade…

Ana Martins

Researcher | Writer | Mother of two | Author of Magic Stones and Flying Snakes https://www.peterlang.com/document/1052524